TXIMNA - NÓS

Somos o povo Ikpeng, falantes da família lingüística Karib. Também aprendemos o português. Somos cidadãos do mundo lutando por manter nossa identidade, mas abertos ao diálogo com outros povos e com os brancos também. Trabalhamos muito para recuperar nosso território original e para manter viva a nossa floresta, a língua, as festas, aliás, coisas inseparáveis para nós.

Temos uma longa história desde nossas origens no Pule, Amazonas. Éramos nômades, mudávamos de território conforme os recursos naturais que precisávamos. A guerra com outros povos fazia parte do nosso ser, e ainda faz.

Já tínhamos visto brancos aqui e ali, mas nosso primeiro contato com eles ocorreu em 1964. Vivíamos nessa época às margens do rio Roro Walu (Jatobá), ao sudoeste do Parque Indígena do Xingu. Os irmãos Villas Bôas vieram ao nosso encontro e nos convenceram a mudar para o Xingu porque chegavam intrusos no nosso território.

Quando nos transferiram cabíamos numa balsa. Imagine uma balsa com os últimos 56 sobreviventes de um povo. Era tudo muito diferente e foi duro nos adaptarmos ao território dos nossos inimigos. Alguns anos depois mudamos pra outra área do Xingu e hoje somos 406 pessoas!

Temos nossa própria organização social e a Associação Moygu para representar nossos interesses lá fora. Temos também nossos professores, agentes de saúde e cineastas ikpeng. Hoje produzimos nossos filmes que viajam pelo mundo inteiro.

Costumamos ouvir dos brancos. “Mas como, falando português, usando celulares e makintóshes estes ‘índios’ se acham ‘índios’?” Se não nos apropriarmos de ferramentas estratégicas para lidar com os demais brasileiros, de que forma poderíamos hoje lutar pelos nossos direitos?

Somos Ikpeng: guerreiros, pescadores de timbó aos sábados, jogadores de futebol aos domingos, carinhosos com crianças, tinhosos com brancos, vorazes por beiju com peixe e por conhecimento.

Foto: Christian Knepper